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A Teoria das Fases de Linnea Ehri na Alfabetização

Os estudos da especialista em desenvolvimento da leitura e psicologia educacional Linnea Ehri foram realizados, em sua maioria, com base na avaliação do processo de Alfabetização de crianças americanas, falantes do inglês dos Estados Unidos. No entanto, eles também podem ser usados como marco teórico para a compreensão sobre como crianças aprendem a ler e escrever em português, no contexto brasileiro.

Hoje vamos apresentar, resumidamente, a Teoria das Fases de Ehri, que descrevem o curso do desenvolvimento da leitura e da escrita em sistemas de escrita alfabéticos. Aqui, evitamos o uso da linguagem acadêmica, mas o artigo foi baseado em evidências científicas, estudos teóricos e no RENABE – Relatório Nacional Baseado em Evidências, do MEC – Ministério da Educação.  

Ehri definiu quatro fases, caracterizadas pelo uso de estratégias diferentes de ensino e aprendizagem. Segundo ela, o importante para as crianças aprenderem a ler e escrever não é a idade, mas sim o conhecimento e o uso que elas fazem das relações entre letras e sons, ou seja, entre grafemas e fonemas. 

Fase pré-alfabética

A primeira fase inclui as crianças que têm pouco ou nenhum conhecimento do sistema alfabético e não são capazes ainda de fazer as relações entre grafemas e fonemas (letras e sons). Elas se baseiam, então, em pistas visuais, o que explica por que é comum acontecerem confusões entre palavras escritas de maneira semelhante, por exemplo. Essas crianças costumam reconhecer palavras porque observam suas cores e formas, como reconhecendo logos de marcas famosas. 

Fase alfabética parcial 

Nesta fase, as crianças já podem ter aprendido a escrever seus nomes, bem como identificar o som de algumas letras, levando tal conhecimento para ler e escrever outras palavras. Mas o conhecimento do sistema alfabético ainda é incompleto, por isso a maioria das crianças nesta fase não é capaz de ler palavras desconhecidas sozinhas, apenas reconhecendo palavras familiares. Quando leem ou escrevem, elas usam o pouco conhecimento que tem sobre as letras e sons produzindo palavras incompletas com as letras que conhecem, muitas vezes letras do próprio nome ou as vogais. 

Fase alfabética completa 

Aqui, as crianças já conseguem formar conexões entre grafemas e fonemas, pois já conhecem o sistema alfabético e dominam as correspondências entre letras e sons. Elas podem, portanto, ler palavras que não conhecem por decodificação e aprender as grafias conectadas à sua pronúncia, bem como a seu significado de modo mais completo. Nesta fase, também se desenvolve a capacidade de recodificação fonológica, que permite reconhecer outras palavras e aprender a ortografia destas. As grafias embora completas ainda podem ter muito erros de ortografia, já que o sons são mais importantes do que as ortografias nesse momento e muitas regras ortográficas não têm relação direta com os sons. 

Fase alfabética consolidada 

Ocorre quando as crianças já são capazes de formar conexões completas entre grafemas e fonemas, além de segmentar a pronúncia das palavras e saber conectar sua pronúncia ao significado que têm guardado na memória. Finalmente, o processo de alfabetização está consolidado. Os próximos passos são, naturalmente, o aumento do vocabulário e a facilidade em guardar as palavras e suas conexões na memória. 

Teoria das Fases na Língua Portuguesa 

Os estudos de Ehri são mundialmente reconhecidos e diversos pesquisadores brasileiros também investigaram a Teoria de Fases na aprendizagem da Língua Portuguesa. De acordo com Cardoso-Martins e seus colaboradores (2003, 2005, 2013), a teoria de Ehri descreve muito bem as fases pelas quais passam as crianças brasileiras no curso do desenvolvimento da leitura e da escrita em português. Assim como acontece com os aprendizes do inglês, as crianças brasileiras que participaram das pesquisas usavam o conhecimento que já tinham do som e da letra como pistas para descobrir a leitura de palavras desconhecidas. As crianças brasileiras também passam pelas mesmas fases descritas por Ehri com crianças falantes do inglês. 

As outras fases da teoria de Ehri também foram identificadas nos estudos feitos no Brasil. Renan Sargiani realizou estudos com Linnea Ehri mostrando como crianças brasileiras aprendem a ler e escrever e mostrou que a teoria de Ehri explica com muita precisão a alfabetização das crianças brasileiras. 

Se você quiser saber mais, entre em contato com o Instituto Edube que podemos compartilhar artigos acadêmicos a respeito! 

Referências 

CARDOSO-MARTINS, Cláudia. Existe um Estágio Silábico no Desenvolvimento da Escrita em Português?: Evidência de Três Estudos Longitudinais. In: MALUF, M. R.; CARDOSO- -MARTINS, C. (org.). Alfabetização no Século XXI: Como se Aprende a Ler e a Escrever. Porto Alegres, RS: Penso, 2013. E-book.

CARDOSO-MARTINS, Cláudia; BATISTA, Anna C. E. O conhecimento do nome das letras e o desenvolvimento da escrita: evidência de crianças falantes do português. Psicologia: Reflexão e Crítica,[S. l.], v. 18, n. 3, p. 330-336, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102- 79722005000300006

CARDOSO-MARTINS, Cláudia; RODRIGUES, Larissa A.; EHRI, Linnea C. Place of Environmental Print in Reading Development: Evidence From Nonliterate Adults. Scientific Studies of Reading,[S. l.], v. 7, n. 4, p. 335-355, 2003. Disponível em: https://doi.org/10.1207/ S1532799XSSR0704_2

EHRI, Linnea C. Reading processes, acquisition, and instructional implications. Dyslexia and Literacy: Theory and Practice.,[S. l.], n. 1998, p. 167-186, 2002. EHRI, Linnea C. Learning to Read Words: Theory, Findings, and Issues. Scientific Studies of Reading,[S. l.], v. 9, n. 2, p. 167-188, 2005. Disponível em: https://doi.org/10.1207/s1532799xssr0902_4 

EHRI, Linnea C. Aquisição da habilidade de leitura de palavras e sua influência na pronúncia e na aprendizagem do vocabulário. In: MALUF, M. R.; CARDOSO-MARTINS, C. (orgs.). Alfabetização no século XXI: Como se aprende a ler e a escrever. Porto Alegres, RS: Penso, 2013. p. 49-81. E-book.

SARGIANI, R. A., EHRI, L. C., MALUF, M. R. Teaching Beginners to Decode Consonant–Vowel Syllables Using Grapheme–Phoneme Subunits Facilitates Reading and Spelling as Compared With Teaching Whole-Syllable Decoding, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1002/rrq.432

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