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O que acontece no cérebro de uma pessoa quando ela está lendo?

A linguagem escrita, composta pelo ato de ler e de escrever, é uma atividade cultural inventada pela espécie humana há aproximadamente 5 mil anos. As estruturas e vias cerebrais necessárias para seu processamento não estão disponíveis ao nascimento e precisarão ser adaptadas a partir de outras funções já estabelecidas. Esse não é um aprendizado que acontece de modo natural e sem esforço, uma vez que várias áreas do cérebro do estudante precisam se modificar para entender o princípio alfabético, ou seja, que existe uma relação entre sons da fala (os fonemas) e suas representações gráficas (os grafemas).

Isso é possível graças a um processo chamado de reciclagem neuronal, que modifica as redes cerebrais destinadas ao processamento visual e à linguagem falada, para permitir esse novo aprendizado. 

Quando aprendemos a ler e escrever, nosso cérebro cria um caminho diferente, que liga as áreas de processamento fonológico (responsável pela compreensão dos sons da fala) com as de processamento visual (responsável por visualizar os estímulos gráficos). Portanto, para ler, o primeiro passo necessário é olhar a letra e acessar seu fonema correspondente. Isso acontece no hemisfério esquerdo do cérebro humano. A partir do momento em que aprendemos a ler, uma área dentro da região occipitotemporal ventral deste hemisfério passa a ter a função de reconhecer a palavra escrita, sendo chamada de área da forma visual da palavra. Antes da alfabetização, essa área é responsável pelo reconhecimento visual de rostos e de objetos.

Quando aprendemos a ler, a visualização dos rostos passa para o lado direito do cérebro e o esquerdo se especializa no reconhecimento de letras. O caminho para a leitura continua na região parietotemporal (área de Wernicke), responsável pelo processamento da imagem acústica da fala e seu significado. Aqui, o grafema que foi visualizado anteriormente se liga ao seu fonema correspondente, sendo possível compreender aquilo que foi lido. Por fim, há o processamento das informações correspondentes aos gestos motores, no lobo frontal do cérebro, que permite a produção oral do que foi lido (DEHAENE, 2013; GABRIEL; KOLINSKY; MORAIS, 2016).

Apesar de todas as descobertas que já temos sobre o processamento cerebral da leitura, a Ciência ainda sabe pouco sobre as bases neurais da escrita. O que temos conhecimento até aqui é que o ato de escrever envolve representações neurais dos gestos manuscritos de cada letra, os quais, por sua vez, estão associados a um circuito ligado a três elementos fundamentais: a representação abstrata das letras, o planejamento do traçado e o controle motor refinado (BUCHWEITZ et al., 2020).

Costumeiramente, a leitura e a escrita são ensinadas simultaneamente. No cérebro, essas duas habilidades também se relacionam, uma vez que os circuitos neurais responsáveis por ambas estão associados, interagem entre si e têm até algumas funções compartilhadas. Como exemplo podemos mencionar a região occipitotemporal, que atua tanto na leitura quanto na escrita. Para ler, nosso cérebro se utiliza das áreas já existentes para o processamento da linguagem oral. Da mesma forma, com a aprendizagem da escrita, formam-se conexões entre circuitos que representam as letras e os que se relacionam aos processos grafo-motores e à execução motora, os quais permitem a produção dos gestos próprios da escrita (BUCHWEITZ et al., 2020).

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Referências

BUCHWEITZ, A. et al. A neurobiologia da leitura e da escrita. In: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Secretaria de Alfabetização. Relatório Nacional de Alfabetização Baseada em Evidências. Brasília, DF : MEC/Sealf, 2020. p. 69-95.

DEHAENE, S. A aprendizagem da leitura modifica as redes corticais da visão e da linguagem verbal. Letras de hoje, v. 48, n. 1, 2013.

GABRIEL, R.; KOLINSKY, R.; MORAIS, J. O milagre da leitura: de sinais escritos a imagens imortais. DELTA: Documentação de Estudos em Lingüística Teórica e Aplicada [online]. v. 32, n. 4, 2016.

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